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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Virada Cultural

segunda-feira, 17 de maio de 2010

No fim de semana passado, aconteceu, em São Paulo, a Virada Cultural, um evento que reuniu mais de mil atrações, a maioria no centro da cidade, durante 24 horas ininterruptas. Para quem não viu, realizamos, aqui no blog Geocidade, uma cobertura diferente da Virada, focando não nas atrações, mas no uso dos lugares. Foi uma primeira experiência, ainda bem tímida, de acompanhar as transformações espaciais à medida que o evento acontece.

Para resumir a experiência da cobertura em uma frase: a Virada condensa em apenas 24 horas o que poderia acontecer durante um ano inteiro de programação cultural no centro da cidade. Pelo sexto ano seguido, o evento leva diversas atrações para praças abandonas e ruas de uso quase exclusivo dos carros. Nesse ano, 4 milhões de pessoas participaram da Virada, lotando lugares que, num fim de semana qualquer, ficam às moscas no centro da capital. 

É curioso perceber que o centro da cidade é utilizado à exaustão durante a Virada para, nos demais fins de semana do ano, carecer de programações culturais gratuitas. É estranho que as mesmas cabeças que decidem retirar os bancos das praças, transformando-as em lugares de passagem, incentivem o uso das mesmas durante um fim de semana do ano.

A escolha por concentrar mil atividades culturais num único fim de semana tem o seu preço. Há uma grande quantidade de ocorrências policiais, tumulto nos eventos mais concorridos, colapso no sistema de transporte público, escassez de sanitários, filas enormes em boa parte das atrações. No entanto, levar, de uma só vez, 4 milhões de pessoas para as ruas do centro, mobiliza a atenção da imprensa e da população, dando visibilidade aos organizadores do evento. 

A Virada Cultural dá, momentaneamente, outros significado às praças e ruas do centro, mas não é suficiente, nem de longe, como política de acesso à cultura e de uso do espaço público. A experiência da Virada mostra que é possível devolver praças e ruas às pessoas, mas não apenas durante um fim de semana por ano. (Foto: Ariel Martini)

domingo, 16 de maio de 2010

Quando o coreto e o piano partirem...

domingo, 16 de maio de 2010
Num fim de semana qualquer, a Rua Direita, na região da Praça da Sé, estaria às moscas. Porém, durante a Virada Cultural, um coreto foi instalado numa das esquinas, onde grupos de São Luiz do Paraitinga, cidade do interior paulista, animavam o público com as suas marchinhas carnavalescas. O coreto provisório conferiu outros ares à rua e, certamente, quando partir, deixará a Rua Direira como antes, quase vazia aos domingos, com todo o comércio fechado, como se aguardasse pela sua utilidade ao raiar da segunda-feira.

Outro caso bastante curioso é o da Praça Dom José Gaspar, que, durante a Virada, ganhou um piano, onde músicos se apresentavam para uma platéia sentada em cadeiras de plástico ou nos barzinhos ao redor. A música era um convite a ficar na praça tranquila, com as ruas ao redor bloqueadas para os carros. Amanhã, sem o piano, o ritmo será o da pressa.

Depois que a Virada passar...

Por Jackline Almeida

Neste ano, não pude participar da Virada porque tive que ficar de molho em casa, com a cara inchada e mal conseguindo falar por causa da extração de dois dentes do siso.

Fiquei acompanhando o evento através da cobertura do Geocidade e, também, pela televisão. Ao ler o "post" “De cortiços a camarotes da cidade”, imaginei como seria bom se, durante a Virada, eu morasse no centro. Da janela de casa, conseguiria assistir vários shows e, ainda, colaborar na cobertura do Geocidade sem ter que abandonar as recomendações médicas.

Contudo, sei que essa minha vontade de ter uma janela voltada para as ruas do centro é passageira. Em um domingo normal, quando as ruas do centro ficam abandonadas, não gostaria de morar ali. O lugar pode ser bom ou ruim, bonito ou feio - basta lembrar do contraste entre a arquitetura e a sujeira do centro-, dependendo dos usos que pretendemos dar a ele. Depois que a Virada passar, o centro, infelizmente, voltará a ser esquecido.

As praças sendo usadas como tal


Não lembro de ver as praças do centro sendo tão utilizadas pelas pessoas como pude notar durante a Virada Cultural. Algumas delas nem como lugar de passagem são utilizadas, pois são vistas como lugar de mendigos e associadas ao uso de drogas. É uma pena que as praças do centro não sejam utilizadas pela população, numa cidade onde faltam espaços de lazer públicos. Um dos pontos positivos da Virada foi a ocupação das praças, seja para tomar sol, conversar, descansar ou assistir a alguma intervenção artística. Pena que a Prefeitura só estimule esse tipo de uso por apenas 24 horas durante o ano inteiro.

Pausa para o descanso


Nada mais justo do que uma pausa depois de recolher o lixo de 20 horas de Virada Cultural. Aliás, o centro não carece só de banheiros públicos, mas, também, de lixeiras. A situação piora ainda mais com a enorme quantidade de pessoas que o evento reúne. Quando as latas de lixo existem, a impossibilidade de se locomover até elas por conta da multidão faz as pessoas abandonarem latas e garrafas pelo caminho. 
Outro detalhe curioso dessa imagem é o banco da praça, projetado para impedir que as pessoas se deitem no local. Nada como o improviso do brasileiro.

O centro tomado pela vegetação

As escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, onde, geralmente, sentam os desempregados durante a semana, com os classificados em mãos, se transformaram num grande gramado durante a Virada Cultural. Um carros abandonado na calçada, tomado pela vegetação, faz lembrar algumas cenas do filme "Ensaio Sobre a Cegueira", quando a cidade, acometida por um surto, se esvazia. Deitar no gramado após a maratona cultural foi relaxante. Nos minutos que fiquei ali, imaginei se todas as calçadas fossem assim, convidativas a permanecer, não apenas a andar. Com uma boa espessura de solo, seria possível pisotear sem, no entanto, comprometer a vegetação. Para mim, a intervenção no Teatro Municipal foi uma das melhores coisas que vi na Virada desse ano.

Banheiro público só durante a Virada?

Pelo sexto ano consecutivo, a Virada Cultural depende exclusivamente dos banheiros químicos para atender ao enorme público. As carências de infraestrutura no centro da cidade ficam evidentes durante o evento, mesmo tendo a Prefeitura seis anos para a adequação do espaço. Não se trata, pois, de imaginar que os banheiros públicos dariam conta de tamanha multidão. Ao contrário, os banheiros deveriam existir no dia-a-dia do centro e, no caso da Virada, serem complementados com os banheiros químicos. Durante um dia comum, na necessidade de utilizar um banheiro, temos que recorrer a bares, que nem sempre liberam o uso para quem não estiver consumindo algo. Não há banheiros públicos construídos no centro e, durante a Virada, isso fica mais que evidente. Quando terminar a Virada, acabam, também, os banheiros públicos improvisados. (Foto: Banheiros químicos durante a Virada Cultural desse ano, em clima de fm de festa)

Amanhecer na Virada

Projeções em prédios desabitados

As formas dos prédios do centro da cidade ganham novos conteúdos durante a Virada Cultural. Os edifícios comerciais vazios têm projeções em suas fachadas escuras, símbolo do centro dedicado aos serviços em detrimento das moradias, essas cada vez mais afastadas de onde a população trabalha.

Se eu perder esse trem, que sai agora às 11h...

Em homenagem a Adoniran Barbosa, o Trem das Onze partirá, de hora em hora, da estação da Luz em direção ao Brás, com samba nos vagões da composição. A idéia me pareceu legal e eu fui lá conferir. Cheguei às onze da noite na Luz e encontrei um cenário desolador. A parte superior da estação, que dá acesso às plataformas, estava toda tomada por uma multidão que tentava se organizar numa fila sem começo nem fim. Para quem pega busão lotado todos os dias, como eu, a idéia de encarar aquela fila na estação de trem não me pareceu nada convidativa. Embora com uma máquina fotográfica precária, tentei registrar o tumulto. Não me parece boa idéia concentrar mais de mil atividades culturais em apenas 24 horas, quando, durante o ano todo, as praças e ruas da cidade quase não têm atrações gratuitas. O Trem das Onze poderia ser um evento de um mês inteiro, mas concentrar as atividades no espaço e no tempo parece chamar mais a atenção da opinião pública.

Aberto 24 horas


Até os pequenos comércios ficam abertos durante as 24 horas da Virada. Na Praça Júlio Prestes, esse mercadinho improvisou um esquema de segurança e, além disso, uma forma de chamar a atenção dos clientes por meio do megafone. Para ficar de pé no banquinho, o segurança veio de longe, da China, mesmo lugar de origem de grande parte dos que trabalham nas lojas da Júlio Prestes.

sábado, 15 de maio de 2010

A faixa de pedestre perdeu o sentido de ser

sábado, 15 de maio de 2010
Ao menos por um dia, as ruas da cidade foram devolvidas às pessoas. Durante a Virada Cultural, o transporte público funciona 24 horas, ininterruptamente. Num sábado normal, o transporte público não opera durante a madrugada, contribuindo para expulsar as pessoas das ruas do centro, principalmente aquelas que moram nas periferias. 
Essa foto foi tirada às 22 horas, numa das avenidas mais movimentadas da cidade, a Xavier de Toledo. O engraçado é que mesmo com as ruas impedidas aos carros, a maioria das pessoas andava pela calçada. A cidade cria fronteiras difíceis de serem demolidas em apenas uma noite.

De cortiços a camarotes da Virada


A Praça Júlio Prestes é, na verdade, uma larga avenida vizinha de uma área de passagem. Ao seu redor, pequenos comércios decadentes onde trabalham, geralmente, imigrantes chineses. Há velhos prédios utilizados como cortiço ou hospedaria. Hoje, na Virada, a varanda de um desses prédios velhos era o melhor lugar para apreciar o excelente show de Barbarito Torres e sua banda. Quem vai contra a maré e mora no centro da cidade pode ver de camarote a Virada Cultural.

O centro antes da Virada começar

Três horas antes do início da Virada Cultural, percebi que ainda não havia almoçado e fui até o tradicional Bar Estadão matar a fome com o famoso sanduíche de pernil. Desde de a década de 1960, quando a redação do jornal O Estado de SP funcionava no prédio vizinho, o bar reúne todo o tipo de gente - jornalistas, estudantes, office-boys -, e assistiu, junto com os frequentadores, o centro da cidade mudar bastante.


O Bar Estadão, três horas antes da Virada Cultural, com movimento habitual. "Durante a madrugada, com a Virada, isso aqui vai ficar lotado", prevê um dos garçons que me atendeu, com o semblante de quem estava imaginando o apocalipse. 

No caminho de volta para o "QG" do Geocidade, resolvi dar uma volta pelo centro e o encontrei, como de costume, como lugar de passagem, com as praças onde irão acontecer os eventos da Virada quase vazias. Fiquei imaginando, enquanto tirava algumas fotos, como que aquele lugar estará em algumas poucas horas, quando milhões de pessoas começarem a brotar das estações do metrô.


A Praça da República, onde está uma das atrações principais da Virada, às 15h. Apenas as equipes técnicas das emissoras de TV ocupam o lugar, embora a praça estivesse aberta para o público, como num dia normal. Em poucas horas, um lugar que é tradicionalmente usado como passagem terá cada metro disputado por milhares de pessoas, ao som do samba.


A Praça Dom José Gaspar jamais teve tantos assentos disponíveis como durante a Virada, quando as pessoas são estimuladas a utilizar as praças do centro.

Começa a cobertura geográfica da Virada Cultural

Estamos dando início à cobertura geográfica da Virada Cultural de 2010. Do "QG" do Geocidade, tenho uma vista privilegiada do centro paulistano, local onde acontecerá a maior parte dos eventos. Aliás, a área onde acontecerá a Virada corresponde, aproximadamente, ao território que a cidade de São Paulo ocupava no final do século 19. 
A idéia da nossa cobertura é retratar as transformações que irão ocorrer, durante as 24 horas do evento, nas ruas, praças e prédios do centro. O foco da nosso olhar é, pois, o território, não propriamente a análise dos shows e espetáculos da Virada - para esse tipo de cobertura, os sites de notícias, como o G1 e o UOL, devem trazer informações ao longo do evento. Como que um lugar tradicionalmente de passagem, que se esvazia aos fins de semana, se transforma, do dia para a noite, em território de lazer e cultura? Quais são as mudanças espaciais que a Virada Cultural irá proporcionar? Como vamos nos sentir vivenciando um centro da cidade diferente, com as pessoas saindo às ruas e usando as praças? Esse é o nosso desafio!
Para quem quiser enviar um relato da sua experiência no território da Virada, basta enviar um e-mail para adriano.rangel@geocidade.info. No mais, boa Virada para todos!


Vista da janela do "QG" do Geocidade durante a Virada Cultural. Três horas antes do início do evento, o som que ecoa do centro é o do samba, vindo da Praça da República, onde acontece os primeiros ensaios. Com o trânsito já interrompido em algumas ruas, a música predomina sobre o barulho dos carros.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Geocidade: 1 mês no ar

quarta-feira, 12 de maio de 2010
Vem ai o especial da Virada Cultural e o projeto que acompanhará a vida de uma praça pública de São Paulo.

Trinta e dois posts depois, cruzamos o primeiro mês de vida do blog Geocidade. Com quase nenhuma divulgação, temos perto de quinhentos pageviews, ou pouco mais de cem leitores, boa parte assídua. Ainda no ensaio daquilo que imaginamos para o Geocidade, agradecemos a todos aqueles que passam por aqui.

Para começar bem o nosso segundo mês no ar, o blog tem duas novidades:

Especial Virada Cultural
A sexta edição da Virada, que reúne diversas atrações culturais durante 24 horas ininterruptas, acontecerá no próximo fim de semana, 15 e 16 de maio, em São Paulo. O curioso é que a maioria dos eventos ocorre no centro da cidade, lugar habitual de passagem, pouco frequentado como espaço de lazer, mas que, durante a Virada, recebe milhões de pessoas em busca de música, teatro, dança...
Como, afinal, o centro é transformado, do dia para a noite, em território cultural? O Geocidade está montando uma equipe de colaboradores que trará, durante a semana da Virada, diferentes olhares sobre as transformações das ruas do centro em lugares de lazer e cultura, algo raro nos espaços públicos paulistanos.

Veja quem já faz parte da equipe (ainda em formação) do Geocidade na Virada Cultural:
Marcelo Fonseca, historiador e autor do blog Hardcore 90 - uma história oral.
Jackline Almeida, jornalista e radialista.
Vanderlei Mastropaulo, geógrafo.
Sattva Horaci, estudante do ensino médio.

A vida de uma praça
São Paulo possui 5.500 praças, porém a maioria sequer é percebida ou utilizada pela população. Mal cuidadas, sem bancos ou árvores, ilhadas no meio de largas avenidas, muitas praças não cumprem qualquer função social na cidade. O blog Geocidade, em parceria com o blog Amigos das Árvores de São Paulo, irá acompanhar a vida da Praça Dr. Afrodísio Vidigal, esquecida no canteiro central entre as ruas Vergueiro e Domingos de Morais, no bairro do Paraíso. Na primeira etapa do projeto, que começa já nesse mês, vamos acompanhar o cotidiano da praça, investigar a sua história, identificar as espécies da flora e conhecer o seus vizinhos -e, quem sabe, futuros frequentadores. Os primeiros a colaborar com o Geocidade nesse projeto são a jornalista e fotógrafa Gleice Bueno e o mestrando em botânica e autor do blog Amigos das Árvores de São Paulo, Ricardo Cardim.