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sábado, 4 de setembro de 2010

A LUANDA DOS RICOS

sábado, 4 de setembro de 2010
 Miséria e riqueza convivem lado a lado na capital angolana. E com muros bem altos.

Por José Viriato
Correspondente do Geocidade em Luanda, capital de Angola.

Musseques, espécie de favela, em Luanda, capital de Angola. Ao fundo, no horizonte, os imponentes prédios de Talatona, bairro nobre da cidade.
Mesmo no auge da crise econômica mundial, Angola contava com um franco desenvolvimento do mercado imobiliário, com facilidades fiscais, vistos de trabalho para interessados, e o imposto aduaneiro mais baixo do mundo, criadas pelo governo com a intenção de atrair o investimento estrangeiro e desenvolver os mais variados sectores da economia do país.

Neste ritmo, com alguns anos de antecedência, nascia num descampado de milhares de metros quadrados o projecto de um novo bairro nobre, que visava dar à Luanda um novo cartão de visita: O Bairro Talatona, na nova cidade de Luanda-Sul.

O projecto inicial contava com a requalificação das estradas principais do município da Samba, com destaque para a Avenida da Samba que faz a ligação com o bairro do Morro bento, Futungo, Futungo de Bellas e Benfica; tudo localizado a sul de Luanda.

Hoje, passados alguns anos, Luanda-Sul ergue-se imponente, com um estilo arquitectonico moderno, com edifícios majestosos que maravilham os olhos de quem por lá passa, representado pelo maior e mais recente bairro nobre de Luanda, Talatona, equipado com um Shopping Center, o Bellas Shopping, O Bellas Business Park, Universidades, a SIAC (Centro Integrado de Apoio ao Cidadão) com representações de vários departamentos de todos os ministérios, estações de Destribuição de Energia e Água, praças, largos e parques; onde o estilo arquiectónico dos condomínios são de deixar boqueaberto qualquer um, arriscando até mesmo um “fio de baba” escorrer da boca! Conta também com um tráfego rodoviário significativo, já que serve de via alternativa para quem se desloca do Benfica à “Luanda Velha” (passarei a designar Luanda Velha a parte antiga da capital, onde se localizam as estruturas do estado como os ministérios, a parte baixa e alta da cidade actual).

Até aqui, tudo bem. Agora começam os problemas que realmente tornam O Talatona em Luanda-Sul o bairro fantasma!

Especulação Imobiliária
Muitos dizem que o problema da especulação imobiliária em Angola, especialmente em Luanda, começou por causa do bairro Talatona. Bairro nobre, recheado de condomínios fechados, com casas orçadas de 300 mil Dólares (528.270,00 Reais) a 3 milhões de Dólares (5.282.700,00 Reais), num país onde o salário mínimo nacional é de 86,5 Dólares (151,53 Reais), segundo o comunicado do MAPESS (Ministério da Administração Pública, Emprego e Segurança Social) e o custo de vida em Luanda é o terceiro mais alto do mundo, só perdendo para New York e Tokyo.

Quem realmente vive em Talatona?
Só os ricos, novos ricos e estrangeiros podem realmente comprar, já que o pacato cidadão funcionário público que não ocupa um cargo de chefia, (e portanto, não pode desviar ou “pedir emprestado” algo como uns míseros “milhõezinhos” para encher o cofrinho) nem em vinte anos de salário mínimo vai comprar uma casa ou apartamento T3 ou T4 neste bairro. Como resultado, 60% das casas e apartamentos neste bairro, ainda estão às moscas, mesmo que muito desses 60% de casas e apartamentos já tenham donos.
Tirando os moradores do bairro Benfica, Morro bento e muito boa gente que sai de Luanda Velha à Luanda-Sul pra pegar aquele cineminha a fim de curtir aquela estreia de Twilight – O Eclipse (odiei esse filme!), ou passar o final de semana na casinha de condominio fechado pra curtir um banho de piscina (com praia a menos de 1 kilómetro de distância!) poucos realmente habitam neste bairro nobre que se mostra como cartão postal da nova cidade.

Enfim... A cidade Fantasma! 
Apesar de durante o dia, Talatona e boa parte de Luanda-Sul ser bem movimentada, a noite a cidade se transforma num cenário de filme de terror, onde você se vê no meio de ruas largas, desertas, meio escuras, com as lâmpadas dos postes de energia eléctrica piscando; sem falar dos edifícios ainda em construção assumindo formas de girafa, dinossauro, king kong e tudo mais que sua mente fértil poder imaginar.

As árvores escassas ajudam no cenário de desolação, onde não se vê nem alma penada circulando pelas ruas, sentadas nos bancos das pracetas e largos e os carros passam a velocidades acima de 100 Km/h, já que nem adianta ter semáforos porque ninguém atravessa a estrada!
Avenida no bairro de Talatona. Não há árvores, tampouco pessoas caminhando. Apenas carros circulam em alta velocidade.
 Meia cidade fica às escuras, ao passo que outra metade, onde “supostamente” tem gente, permanece iluminada. O shopping Center está quase sempre apinhado de gente, já que para os moradores de Talatona, este é o único local próximo onde se pode achar um pouco de distração, assistindo filmes, enganando o estômago ou ainda engordando a vista com os produtos expostos nas vitrines das lojas a preços de matar sogra! Haja bolso que aguente tanta facada!!!

Onde pára a gente de Talatona?
Para responder de forma simples e directa, a gente de Talatona pára mesmo é em Luanda Velha, onde a cidade não dorme aos finais de semana, desde o bairro pobre lá nos confins da cidade passando pela baixa, centro até a parte Alta.

As estradas sempre em movimento, na baixa de Luanda, a Ilha de Luanda apresenta-se sempre cheia tanto de banhistas como de Jovens e não tão jovens, trajados a rigor pra “caír na noite” nos bares, pub’s e discotecas (clubes nocturnos). Restaurantes cheios, Praça da independência apinhada de jovens casais aos beijos e aqueles que na impossibilidade de frequentarem um bom ginásio, aproveitam as alteres, manguitos e barras paralelas, para cultivar os músculos com a clara intenção de ficarem Caenxe (sarados).

No bairro pobre, o “tchilo”(do verbo angolano “tchilar” que significa, farrar, festejar, relaxar em companhia de amigos e parentes) começa no fim da tarde com a grande sentada dos mais velhos, em frente a porta da casa da tia Chica, recordando os bons tempos numa conversa acalorada, com bué(muita) de cerveja, churrasco, pincho de porco (pedaços carne de porco no espeto, assados a carvão e temperados com cebola em rodela, pimenta malagueta, sal a gosto, vinagre e óleo vegetal), cachorro quente e “motorola”(coxa de frango frito, acompanhado com pão, repolho picado, ketchup mostarda e maionese) à mistura. Na rua, Dj’s amadores controlam a música no bairro tocando Kuduro, levando crianças e adolescentes a disputar quem dança melhor.

À noitinha, no quintal do “Mankilas”, damas e cavalheiros trajados a rigor pra riscar a pista de dança e exibir toques refinados da boa kizomba de Yola Semedo, Heavy C, Konde, Pérola e tantos outros; o bom Semba do Kota Bonga, Hélvio, Paulo Flores, Elias Diakimuezo, Yuri da Cunha, Armanda, Carlos Burity, Rei Helder, “O Proletário”, enfim; e mais lá na madrugada, quando a finúria já não é importante, visto que a primeira impressão já foi deixada, as mulheres descalçam os sapatos de salto alto, deixam os tiques de lado e dançam do bom Kuduro com toda mestria, gritando o tradicional “ Ou nos matam... ou quê!!!”, ao som das músicas de Xtrubantú, Puto Lilas, Vagabanda, “Os mais Potentes”, Nakobeta, Noite e Dia, Própria Lixa, Bruno M, Puto Prata, Saborosa, Fofandó e outros; sem esquecer o bom Funk brasileiro!!!
Já pelas três horas da madrugada, a polícia chega para por fim a barulhada lá no bairro porque aquela vizinha rabugenta, também conhecida por Tia Ngongo, ligou e fez queixa por causa da música alta, alegando que a sogra, que sofre de hipertensão arterial, está doente e não consegue dormir. Grande mentirosa, a inveja mata!!!

E Talatona, o bairro nobre?
Continua lá, aguardando o nascer de um novo dia... sozinha, deserta, carente, no escuro.
 José Viriato, 27, é angolano, professor de Biologia e estudante de Medicina na Universidade de Luanda.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

As transformações do tempo

segunda-feira, 7 de junho de 2010
São Paulo é uma cidade cheia de histórias, contudo ao passar pelas ruas não observamos sua composição. Às vezes por falta de tempo, outras porque os objetos, prédios, as esculturas e ruas tomam outras dimensões com o passar dos anos e certas peculiaridades acabam sendo esquecidas ou escondidas.


O primeiro monumento artístico construído na cidade é o Obelisco da Memória, formado no ano de 1814. Localizado no Largo da Memória, ele era chamado na época de Pirâmide do Piques. Seus autores queriam homenagear a iniciativa do poder público pela realização de uma série de benfeitorias, entre elas a construção de um chafariz próximo da “pirâmide”.

Em 2005, a obra foi restaurada. Na época, as maiores dificuldades encontradas foram decorrentes do vandalismo sofrido pelo monumento, que sempre é alvo de pichadores.

Hoje, quem passa pelo monumento quase não o percebe, o obelisco fica entre prédios e ao lado de uma das árvores mais velhas de São Paulo. Seu tamanho e importância parecem ter diminuído com o crescimento da cidade.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Hip Hop fica de fora dos palcos principais da Virada Cultural

sexta-feira, 21 de maio de 2010
O MC Marcello GuGu questiona a exclusão do Hip Hop dos palcos do centro da cidade, motivada pela confusão ocorrida há três anos, durante show do Racionais MCs na Virada Cultural. Mais do que um protesto a favor de um gênero musical, esse caso evidencia a segregação espacial presente na cidade. Post encerra a semana dedicada à Virada Cultural no blog Geocidade. 

Por MC Marcello GuGu*

Lendo uma reportagem, no site da folha online mais precisamente, li o seguinte paragrafo :

Segundo o diretor do evento, José Mauro Gnaspini, alguns grupos de hip hop não estão na grade "ou porque a gente considera que o espaço não é adequado e a gente tem receio de segurança, ou por causa da nossa experiência pregressa". Nesse caso, ele cita otumulto que ocorreu no show dos Racionais em 2007.

Entendi algumas coisas ao ler a frase infeliz do nosso grande amigo José Mauro...

Oi José Mauro, tudo bem campeão?!

Pra começar, seria mais bonito dizer que, voces tiveram os motivos a dois anos atras pra fazer o que sempre tiveram vontade de fazer, excluir.

Sinceramente esperava mais de vcs que sempre dizem em campanhas que investem no futuro dos jovens...

A minha pergunta é...Em quais jovens vcs investem?!

Numa virada cultural, num evento que reune diversas manifestações culturais de diversas regiões, vcs conseguiram excluir um que nasceu em e Sp e se espalhou pro resto do Brasil...Prabens hen campeão!

Fatalidades acontecem, o que aconteceu a DOIS ANOS ATRAS, sem duvida nenhuma abalou a confiança da cidade em relaçao a NOSSA cultura. O que eu acho mais engraçado é que a nao muito tempo atras, num determinado jogo de futebol, destruiram uma das principais avenidas, mas os jogos nao pararam de acontecer nao é??

nao falo nome de time pois nao tomo partido, a nao ser pela minha cultura que mais uma vez foi oprimida por forças maiores. VOCES.

ainda sou obrigado a ouvir nego dizer que o hip hop tem conquistado cada vez mais espaço...
tsc, tsc, tsc

o espaço que a gente conquista, nao é cedido, é tomado, sempre foi assim e ficar esperando migalhas, leis de incentivo, leis do caralho a 4 é nada mais nada menos que se iludir achando que alguem que ta lá em cima vai abraçar uma causa que é NOSSA, não de voces.

pra voces nao é interessante incentivar um movimento cultural que tem base em subversao e resistencia...
desculpa, eu vejo o hip hop assim, e lil wayne nenhum vai me fazer ver diferente (pros xiitas de plantão, eu gosto de lil wayne).

Agora voces tem medo...e nao vao aceitar que independente de quem for o show, os jovens que pixaram, quebraram etc etc vao ta na rua...

no dia da virada cultural voces nao vao poder fazer nada se os jovens excluidos resolverem fazer algo a respeito...a nao ser assistir o mundo pegar fogo....

se vcs nao derem opção...a gente cria opção...
se o governo nao der espaço, a gente toma o espaço...
e por mais que digam..a rua nao tem dono...la nada é de ninguem...e vcs sabem do que jovens sao capaz...

'Juntas, as formigas, conquistam um elefante...'
Rbg

Paz!!

*Marcello GuGu publicou esse post originalmente em seu blog "Até que enfim GuGu..." e, a convite do Geocidade, o disponibilizou na íntegra.
Foto: Lorri37

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Novas dimensões

quinta-feira, 20 de maio de 2010


Por Sattva Horaci*

O Vale do Anhangabaú, lugar cercado de grandes edifícios, recebeu, nessa Virada Cultural, um enorme balão, colorido, iluminado e com efeitos de sombras. Essa instalação levou o calor das cores para um lugar que, no seu cotidiano, é cinzento, com ritmo acelerado e habitado por muitos pombos e mendigos.

Em um dia comum, estar entre tantos prédios nos traz a sensação de sermos menores do que somos. No entanto, naquela noite, o vale se iluminou com a grandeza do espetáculo. Na cesta do balão, foram pendurados aparelhos circenses, onde acrobatas se revezavam em performances aéreas. Unir o sonho do circo à imagem do balão trouxe a sensação de leveza. Conforme o balão ia tomando forma, ganhando a paisagem, os grandes edifícios do centro pareciam meros detalhes.

Sattva Horaci, 16, é estudante do ensino médio. Esse "post" foi escrito à convite do blog Geocidade.
Foto: Sattva Horaci

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Furada Cultural 2010

quarta-feira, 19 de maio de 2010


No lugar de um mega evento anual, por que não eventos menores e mensais, criando, assim, um hábito de frequentar o centro e mantendo a economia aquecida ao longo do ano?

Por Herbert Rodrigues*

A Virada Cultural foi criada no primeiro ano da gestão do prefeito José Serra (em 2005) e, desde então, tornou-se um dos maiores eventos de rua da cidade de São Paulo. Apesar da assinatura tucana, o evento é quase uma unanimidade até mesmo entre os que nunca participaram dela.

Como morador do centro de S. Paulo, acho o evento muito legal. Gosto do clima que se forma nas ruas (apesar do alto consumo de drogas e da sujeira), de ver as pessoas caminhando pela cidade de madrugada, ocupando os espaços e assistindo aos shows. Até aí, tudo bem. No entanto, considero a Virada Cultural um dos grandes equívocos da política cultural dessa cidade. Se gasta muita grana para um retorno muito pequeno. Quer dizer, o retorno existe, mas certamente não é cultural. Por outro lado, a cidade, sobretudo o centro, fica completamente abandonada ao longo do ano. Não existem eventos de rua como apresentação de teatro, circo, dança, musicais e outras expressões artísticas. O carnaval de rua é um fiasco. As praças estão abandonadas. O valor gasto com esse evento é quase a metade do que foi utilizado na reforma da Biblioteca Mário de Andrade, iniciada em 2007 e ainda não concluída. A placa de reforma da praça Roosevelt, cujo inicio seria em 2006, já apodreceu e caiu. O Teatro Municipal está fechado. Os cinemas de rua praticamente não existem mais. A demolição do Minhocão e a criação de uma área de lazer no lugar é uma mentira. (Estou pra ver um prefeito que tenha coragem de pagar o preço político de fazer qualquer reforma urbanística que não privilegie o automóvel nessa cidade.) Além de não ter eventos de rua, nem os shows do Ibirapuera, que eram patrocinados pela iniciativa privada, existem mais!


A Virada Cultura desse ano foi inflacionada com um número assustador de atrações de gostos duvidosíssimos. Estranhamente, muitas coisas ficaram de fora esse ano, assim como em outras edições. Por que não tem espaço para o rap? Por que nunca houve um espaço para música sertaneja ou música de raiz? Que samba é esse que colocaram na praça da República? Quais foram as grandes atrações do rock? Quais foram os grandes cantores populares? O que tivemos foi um amontoado de ex-bandas em atividade. Que diversidade é essa? Na minha opinião, esse evento é uma farsa para enganar a classe média mal informada que só passa pelo centro de carro quando não tem caminho alternativo, assustada e com os vidros fechados – nem sequer para no sinal vermelho. Na boa, o que há de cultural nessa virada? Trata-se de um belo verniz cultural, uma peça de propaganda política bem ao estilo de Goebbels, que dizia uma mentira mil vezes até transformá-la em verdade.

São Paulo precisa de uma política urbanística e cultural séria para o centro que privilegie, sobretudo, a moradia, a segurança, a limpeza, a conservação e o meio ambiente na principal área da cidade. Até hoje não se resolveu o problema dos ambulantes, o número de moradores de rua só cresce, a cracolândia vive a sua própria sorte, moradores sofrem com a desvalorização dos imóveis, com a sujeira e a sensação de insegurança, até artistas são baleados no interior dos teatros.

No lugar de um mega evento anual, por que não eventos menores e mensais criando assim um hábito de frequentar o centro e mantendo a economia aquecida ao longo do ano? No lugar de escolhas artísticas duvidosas, por que não uma consulta pública sobre os interesses culturais da população? No lugar de gastar milhões de reais num único dia, por que não um investimento sério a longo prazo que leve em consideração uma melhor cidade para se viver?


Herbert Rodrigues é antropólogo. A convite do Geocidade, disponibilizou este artigo, publicado originalmente no blog Wine Blackboard.


Foto: Alexandre Vieira

terça-feira, 18 de maio de 2010

Zanzando pela Virada

terça-feira, 18 de maio de 2010
Por Marcelo Fonseca*

Depois de seis edições, a Virada Cultural entra de vez no calendário da cidade. Prova disso é a quantidade de eventos que acontecem em paralelo, aproveitando o fluxo massivo de pessoas ao centro da cidade. Saí de casa - moro na extrema zona sul de São Paulo - com destino ao metrô Penha, onde iria assistir um show fora da programação da Virada, mas que teve seu agendamento programado para coincidir propositalmente com essa data. No ônibus, rumo ao centro, já se percebia o clima “festivo” que toma conta da cidade nesse dia. Pessoas de várias idades, mas principalmente jovens, com os trajes que também identificam o tipo de atração que irão assistir. 

Ao descer na Praça da Bandeira, já pude ver, na plataforma de desembarque, pequenos grupos de pessoas esperando outras, como um grande ponto de encontro. Subi as escadas rolantes, que estavam desligadas, passando por pessoas de todo tipo. Ao lado do metrô Anhangabaú, um pequeno palco era rodeado por centenas de pessoas. Tocava James Brown, e todos pareciam muito empolgados, aproveitando como numa autentica festa de rua. Na frente da estação do metrô, repetiu-se a cena do “ponto de encontro”, o que me levou a pensar na necessidade das pessoas em saírem para curtir a noite em grupo, e, por tabela, a quantidade de ambulantes que tentam defender seu troco com vinho “Chapinha” e cerveja barata. Quando embarquei, vi o metrô lotado, como se fossem 18 horas de uma sexta feira; mais um indicativo de que a população das mais variadas regiões comprou a “festa”. 

Na Penha, adentrei ao "Kool Metal Fest", festival que privilegia as vertentes mais extremas da música pesada. Em atividade desde de 2003, os organizadores já trouxeram e apresentaram muitas bandas aqui na cidade, mostrando que existe um público para esse segmento e que este também é sedento por novidades. Por mais que o evento esteja fora do calendário “oficial” da Virada, é de se pensar na presença das mais de 2.000 pessoas que enchiam o galpão para ver, além das 3 bandas brasileiras (Western Day, D. E. R. e Violator), as duas internacionais - Suffocation (E.U.A) e Napalm Death (Inglaterra). 

Bancando o “flaneur”

Depois de urrar e banguear muito com as bandas, peguei o metrô e segui para a Praça Julio Prestes. Errei a saída e, quando me dei conta, estava no miolo da Crackolândia. Fiquei meio cabreiro ao me deparar com uma cena digna de filme de zumbis. Grupos se amontoavam sob as marquises, onde se via apenas o brilho das pedras de crack em chamas na escuridão. Eles brigavam, se xingavam e falavam frases que não consegui entender. Pareciam assustados com o volume de pessoas que zanzavam por aquelas ruas - vim entender depois que isso não se dava pelas pessoas, mas pelas patrulhas e guardas que estavam sempre rodeando os quarteirões. Pelo menos desta vez, a administração da prefeitura não fez uma faxina, mandando os desvalidos para fora da cidade. 

Na praça Julio Prestes, completamente tomada, vi o show do "Living Colour", banda americana que fez muito sucesso por aqui em meados dos anos 90. Os músicos, além de serem super competentes em seu som - uma fusão de heavy metal, funk, jazz fusion, blues e rock -, demonstravam no semblante muita alegria por estarem tocando para um público tão grande. Pessoas se penduravam em muros, beirais, postes e árvores. Mas, além disso, pelo menos de onde eu estava, rolava um astral muito bom, com as pessoas curtindo e se divertindo em plenas 3h45 da manhã, como mostrava o relógio da torre da antiga estação de trem. 

Ao sair de casa, eu já tinha pensado em bancar o “flaneur”. Curtir a cidade zanzando por entre as atrações sem sequer saber e sem ver a programação previamente. Depois do fim do show do "Living Colour", segui pela rua dos Andradas, sentido viaduto Santa Efigênia. Parei por um tempo para ver um DJ que apresentava um set voltado ao hip hop americano. Foi completa a transformação de público, que, de mais “múltiplo e diverso”, passou a algo mais específico, com rapazes de cabelo black-power ou usando moletons e roupas largas com boné, além de lindas garotas negras de jeans justo e salto alto. Numa edição que teve o rap “banido” do centro, foi bom ver o público desse estilo musical “tomando a cidade para si”, de alguma forma. 

Na rua São João, um palco tocava algumas variantes do reggae para um público bem em sintonia. Como não é o tipo de música que me apetece, logo eu estava caminhando de novo. Na frente do Teatro Municipal, tocava música eletrônica (trance), enquanto projeções eram feitas na fachada do teatro. Casais das mais variadas sexualidades se beijavam na escadaria do municipal e ficavam sentados de mãos dadas. Coisa bonita de se ver. Dali, vi muitas pessoas seguindo pela rua Barão de Itapetininga, sentido praça da República.


O centro, como um todo, era tomado por vagalhões de gente indo e vindo. Obviamente que, com a pouca quantidade de banheiros públicos, homens e mulheres se enfiavam em cantos menos visíveis para fazer suas necessidades. O meio fio era tomado por latas de cerveja, refrigerante, garrafas, copos plásticos. E escrevo isso não por ser paranóico com limpeza, mas porque me peguei pensando na ausência de lixeiras. E como isso facilitaria o trabalho de limpeza posterior e preveniria o uso de tantas “armas potenciais” expostas, como latas e cacos de vidro, em um provável ambiente de tumulto. 

Quando me dei conta, o dia já dava sinais de raiar. Segui para o Terminal Bandeira, onde vi alguns bêbados dormindo pelas calçadas e paredes de lojas. Apesar de realmente ter transporte durante a noite toda, a organização esqueceu de avisar que a quantidade não seria a mesma de normalmente. Todos os pontos estavam lotados. Peguei meu ônibus até rápido, porém, vim apinhado com inúmeras pessoas.



Saldo geral


Apesar das falhas de organização, ainda vale a pena sair rumo ao centro e se sentir como que tomando posse dele. Num momento onde, mais e mais, o centro começa a ser apropriado por uma operação de “embranquecimento” capitaneada pela prefeitura, é bom caminhar e ver a cidade com olhos não focados no caminho, mas sim na cidade ao redor. O espaço só tem significado se as pessoas atribuem isso a ele, e, desta forma, com todos os seus erros, é algo que a Virada pode fazer para populações que, normalmente, não estariam ali, e que, nesse dia pelo menos, podem deixar sua casa e se divertirem noutra parte da cidade.

Marcelo Fonseca, 36, é historiador e mestrando em História Oral pela PUC. Escreveu este "post" a convite do blog Geocidade.
Foto: Luis Fernando Gallo

sábado, 8 de maio de 2010

A injustiça ambiental na cidade

sábado, 8 de maio de 2010
A leitora Ana Paula indicou o Mapa da Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, desenvolvido pelo Fundação Oswaldo Cruz em parceria com a Fase e o Ministério da Saúde. Trata-se de um atlas criado no Google Maps, com uma série de informações sobre locais onde há conflitos ambientais que prejudicam as comunidades.

Nosso objetivo não se reduz a listar territórios onde riscos e impactos ambientais afetam diferentes populações, mas sim tornar públicas vozes que lutam por justiça ambiental de populações freqüentemente discriminadas e invisibilizadas pelas instituições e pela mídia.

Abaixo, um exemplo de informação cartografada no atlas. Na periferia de São Paulo, o bairro Jurubatuba, considerado um dos mais degradados da cidade, convive com a contaminação dos recursos hídricos causada por um aterro. Distante espacialmente e socialmente do centro da cidade, o lugar não recebe a atenção devida do Estado e da imprensa.




Envie as suas contribuições para o blog Geocidade: adriano.rangel@geocidade.info.